MP oferece denúncia contra Schiaveto

TARSIRA RODRIGUES

O Ministério Público do Estado (MP-RR) convocou a imprensa, na manhã de ontem, para comunicar o fim das investigações do caso que envolve a morte da advogada e defensora pública Maria Luiza Coelho, que perdeu a vida durante um processo cirúrgico realizado pelo cirurgião plástico Henrique José Schiaveto. Após análises da provas, o MP decidiu apresentar denúncia à Justiça contra o cirurgião pelo crime de homicídio duplamente qualificado.

As investigações foram coordenadas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco/RR), que trabalha em conjunto com a 1ª Promotoria Criminal do Órgão Ministerial. O promotor Marco Antônio Bordin  disse que um dos agravantes principais foi o fato de Schiaveto ter realizado a cirurgia plástica na vítima sem o devido acompanhamento de médico cirurgião auxiliar, assumindo, desse modo, o risco de causar dano à vida da paciente.

Argumentou ainda o fato de o médico ter dado alta à paciente sem levar em consideração o estado de saúde que apresentava no momento, quando a pressão estava alta e ela sentia muitas dores, conforme constam nos altos do processo. O atestado de óbito de Maria Luiza registrou como causa da morte lesões viscerais provocadas por cirurgia plástica da região tronco-abdominal e septicemia (infecção generalizada).

 

Maria Luiza Coelho, a Malu, morreu dois dias após a cirurgia plástica

"Mais uma vez este médico, fazendo ato cirúrgico, perfurou tanto a cavidade abdominal quanto a cavidade torácica, permitindo assim a liberação de fezes, ocasionando a infecção e, por consequência, a morte por parada cardiorrespiratória", acrescentou. A pena de Schiavetto, segundo o Ministério Público, solicitada na denúncia pode chegar a 30 anos de reclusão.

PRISÃO - Em janeiro, a Justiça Estadual determinou a prisão do cirurgião plástico Henrique Schiaveto. O pedido de prisão cautelar de 30 dias foi formulado pelo Ministério Público, que investiga a morte de duas pacientes submetidas a procedimentos estéticos pelo médico, dentre elas está a defensora pública Malu. A prisão foi ocasionada pela morte da paciente Maurizia Gomes de Souza, que perdeu a vida em um procedimento de lipoaspiração realizado pelo médico em outubro do ano passado.

O médico foi solto no início de fevereiro por determinação judicial. Schiaveto recebeu o alvará de soltura na Penitenciária Agrícola do Monte Cristo, onde estava recolhido inicialmente, antes da transferência dele para o Comando de Policiamento da Capital da Polícia Militar, onde ficou preso quase todo o período.

CRM - O cirurgião plástico responde ainda a uma sindicância instaurada pelo Conselho Regional de Medicina de Roraima (CRM), que está em processo de finalização. Conforme o presidente da entidade, Wirlande da Luz,  no máximo em 15 dias a sociedade saberá o resultado do processo. 

MÉDICO – A Folha tentou contato com o Henrique Schiaveto, mas os telefonemas não foram atendidos. A Folha apurou que ele mudou de advogado e até o momento não tem uma nova representação de defesa conhecida.   

O CASO - Após complicações ocasionadas pela cirurgia plástica de lipoaspiração e sustentação de seios, a defensora Malu faleceu no dia 7 de janeiro. Ela atuava na Defensoria Pública do Município de Rorainópolis, sul do Estado.

Malu internou-se no dia 5, segundo informações da amiga, a também defensora pública Terezinha Muniz, e o procedimento foi realizado às 13h30 do mesmo dia. Ela recebeu alta no sábado, 7, por volta das 9h30.

Terezinha não estava na cidade no momento da liberação da amiga, mas pediu à sobrinha que fosse ao hospital buscá-la para que Malu ficasse sob seus cuidados durante a recuperação.

“Após a alta médica, chegamos na minha casa e ela chegou a cogitar a possibilidade de seguir para a casa dela. Não deixei. Quando vimos o estado dela, a dificuldade que foi para tirá-la do carro, disse que era melhor ela ficar na minha casa mesmo. A Malu reclamava muito de dores nas costas e no abdome. Tinha momentos que ela dizia que estava com dores no estômago e depois achava que era na barriga”, relatou Terezinha.

A defensora também reclamava que não conseguia respirar, sentia a barriga cheia de água. Diante do estado da amiga, Terezinha começou a contatar o médico responsável pela cirurgia, o qual não atendia ao telefone. Após várias tentativas, a secretária do médico informou outro número, que possivelmente seria de um dos assistentes. Enfim, o contato com o médico foi realizado. Terezinha informou o estado da amiga, que estava passando mal, com dificuldades para respirar e com o corpo gelado. Terezinha suspeitava que ela estivesse com a pressão arterial baixa.

“O cirurgião disse que o fato de ela estar sentindo dores era normal, tendo em vista que acabara de passar por um processo cirúrgico extremamente agressivo. Por telefone, ele orientou levá-la para a emergência do hospital onde foi realizada a cirurgia para que ela fosse internada”, descreveu.

“Chegamos ao hospital por volta de 11h do dia 7. Ela já não conseguia andar e teve que ser levada em cadeira de rodas. Na emergência, fizemos a ficha. O médico plantonista fez os atendimentos de admissão de pacientes, porém não conseguia verificar a pressão arterial de Malu. Ele mandou colocá-la em um quarto, cobrir com dois lençóis e desligar o ar-condicionado”, explicou Terezinha.

Na emergência também foram colhidas amostras de sangue para exames.  Enquanto a paciente esperava a chegada do cirurgião plástico, que chegou uma hora depois da internação, o resultado do exame de sangue saiu e o médico plantonista mandou colocar soro e bolsas de sangue na defensora.   

“Quando ele [cirurgião plástico] chegou, abriu a cinta que ela estava usando e verificou que a lateral da barriga da paciente estava roxa e inchada”, relatou a amiga. A defensora disse que ele levou um susto e mandou chamar outra médica para acompanhar o caso. Quando esta chegou, por volta das 14h, Malu foi encaminhada para a Unidade de Tratamento Intensivo (UTI).

Ao verificar o estado clínico de Malu, a médica informou a Terezinha que a condição de saúde dela era muito grave. Após a internação na UTI, Terezinha disse que o último boletim de saúde divulgado verbalmente pela equipe que estava responsável pelo caso, por volta das 16h30, dava conta de que o estado da defensora era gravíssimo, apresentando infecção generalizada e precisava passar por uma cirurgia, mas que ela poderia não resistir.  

Antes do início da cirurgia, Malu teve parada cardíaca e faleceu às 17h. Na sequência da notícia da morte, às 17h30, Terezinha Muniz procurou o 1º Distrito Policial (1ºDP), localizado no Centro, para registrar um Boletim de Ocorrência com a suspeita de erro médico.

 

Fonte: FolhaBV

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